O TROCA-TROCA DE GESTÃO

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O troca-troca de gestão

Trocar de gestão tem suas vantagens e desvantagens.

Você logo entenderá esse título que, apesar de curioso, representa uma situação bastante comum no mundo das organizações.

Em algumas empresas, parece que falta alguma coisa. Pode ser uma política de gestão bem definida, orientações claras, objetivos ou até mesmo um caminho que ajude a equipe a trabalhar na mesma direção.

Quando isso acontece, os problemas começam a aparecer. E um deles pode ser a dificuldade de manter as pessoas nos cargos de liderança.

Quando ninguém para no lugar

Em muitas organizações, o turnover, ou rotatividade de pessoal, é elevado. Há empresas em que as pessoas não permanecem por muito tempo em determinados cargos. O entra e sai é tão frequente que até quem desconhece o termo percebe que existe algo errado.

E o que acontece quando vários gestores passam pela mesma equipe em um curto período?

Cada um chega com suas ideias, suas experiências e sua maneira de trabalhar. O time, por sua vez, precisa se adaptar novamente, rever procedimentos, aprender a lidar com outra liderança e tentar entender o que se espera dele.

Esse processo exige tempo e energia.

É natural que um novo gestor precise conhecer a equipe, avaliar os processos e propor melhorias. Afinal, nem tudo o que encontra precisa ser mantido.

O problema começa quando a mudança deixa de ser uma necessidade da organização e passa a ser uma tentativa de cada gestor de deixar sua marca pessoal.

O problema de querer mudar tudo

Imagine a seguinte situação.

Um gestor deixa a empresa e outro assume seu lugar. A equipe, que já passou por um período difícil de adaptação, precisa começar tudo novamente.

O novo líder chega e decide mudar processos, reorganizar funções, alterar a rotina e estabelecer novas regras. Até aí, dependendo das circunstâncias, nada necessariamente errado.

Mas existe um detalhe que merece atenção: ele está fazendo essas mudanças para atender às necessidades da empresa ou para impor a própria maneira de enxergar o mundo?

Percebe a diferença?

Todo gestor possui valores pessoais, crenças, experiências e convicções. Isso faz parte de quem ele é. O problema não está em ter valores, mas em acreditar que todos os integrantes da equipe precisam pensar da mesma maneira.

Imagine, por exemplo, que a família seja um dos seus valores mais importantes. Você procura organizar sua rotina para estar presente na vida dos filhos e participar dos momentos importantes.

Seu novo gestor, entretanto, entende que um bom profissional precisa estar sempre disponível, inclusive fora do horário de trabalho, mesmo quando não existe uma necessidade real que justifique isso.

Como você se sentiria?

Agora imagine outra situação: um gestor considera a religião um dos pilares da sua vida e começa a esperar que as pessoas da equipe compartilhem dessa mesma visão.

São situações diferentes, mas que nos levam à mesma reflexão: o cargo de liderança não dá a ninguém o direito de impor suas convicções pessoais aos demais.

Os valores pessoais não são os valores da empresa

É importante fazer uma distinção.

Uma organização pode estabelecer valores, princípios e regras que orientem suas decisões e o comportamento esperado de seus profissionais. Cabe à liderança ajudar a equipe a compreender e colocar esses princípios em prática, respeitando a legislação e os direitos das pessoas.

Mas isso não significa que todos devam ter as mesmas crenças, prioridades familiares ou opiniões pessoais do gestor.

O papel do líder é criar condições para que pessoas diferentes trabalhem em torno de objetivos comuns.

Para isso, transparência é fundamental.

A equipe precisa compreender o que se espera dela, quais são as prioridades da organização e por que determinadas mudanças estão sendo realizadas.

Quando as decisões são tomadas apenas porque o gestor considera que sua maneira de fazer as coisas é a melhor, sem diálogo ou justificativa consistente, a liderança corre o risco de se transformar em imposição.

E ninguém deveria precisar abandonar sua identidade para trabalhar em equipe.

A equipe não pode pagar o preço da carreira do gestor

Outro aspecto que me chama a atenção é a quantidade de mudanças realizadas sem que exista tempo suficiente para avaliar seus resultados.

Um gestor chega, muda tudo e, antes mesmo de verificar se as alterações funcionaram, deixa a empresa. Em seguida, outro profissional assume e começa um novo ciclo de transformações.

A equipe fica no meio desse processo.

As pessoas precisam se adaptar, reaprender, lidar com inseguranças e conviver com diferentes estilos de liderança. Com o tempo, podem perder a confiança nas decisões da organização e deixar de acreditar que vale a pena investir em novas iniciativas.

É claro que existem momentos em que mudanças rápidas são necessárias. Também existem gestores que assumem equipes com problemas sérios e precisam tomar decisões difíceis.

Não se trata, portanto, de defender que nada mude.

A questão é outra: mudanças precisam ter objetivos claros, critérios consistentes e acompanhamento. Não deveriam servir apenas para que cada novo líder demonstre autoridade ou tente provar que sua maneira de trabalhar é superior à do antecessor.

A equipe não pode se transformar em um laboratório permanente para experiências sem direção.

Liderar também é respeitar

O bom gestor precisa entregar resultados. Isso faz parte de sua responsabilidade.

Mas resultados e respeito não são objetivos incompatíveis.

É possível estabelecer metas, cobrar responsabilidades, corrigir falhas e promover mudanças sem desconsiderar as pessoas que fazem parte da equipe.

Também é necessário compreender que os profissionais têm uma vida fora da empresa. Possuem família, compromissos, crenças, interesses e projetos pessoais.

A liderança pode organizar o trabalho e estabelecer expectativas profissionais legítimas. O que não deve fazer é tentar controlar a vida das pessoas para atender a preferências pessoais ou favorecer a própria carreira.

Afinal, uma equipe não é formada apenas por cargos e funções. É formada por pessoas que precisam compreender o propósito do trabalho, confiar nas decisões e encontrar condições para contribuir.

Talvez o verdadeiro desafio de um novo gestor não seja mostrar rapidamente tudo o que consegue mudar, mas identificar o que precisa ser preservado, o que realmente precisa melhorar e como conduzir essa transformação junto com a equipe.

Porque liderar não é fazer com que todos sejam iguais a você.

É conseguir que pessoas diferentes trabalhem juntas, respeitando suas diferenças e buscando resultados em comum.

E, quando o troca-troca de gestão se torna frequente, talvez seja hora de a organização olhar além dos nomes que entram e saem e perguntar:

O problema está apenas nos gestores que passam pela empresa ou também na maneira como a gestão é conduzida?

Pense nisso!

Sou
Luciano Muchiotti, especialista em carreira, liderança e orientação profissional. Meu propósito é ajudar estudantes a desenvolverem o autoconhecimento, compreenderem o mercado de trabalho e fazerem escolhas profissionais mais conscientes e seguras.