SER HUMANO, OU SER PROFISSIONAL?
Será que precisamos escolher entre um e outro?
Esse tema surgiu depois da leitura de uma matéria que, embora apresentasse argumentos interessantes e de boa qualidade, provocou em mim algumas reflexões diferentes.
A questão que quero colocar é simples, mas não necessariamente fácil de responder:
Como evitar que os problemas do trabalho interfiram na nossa vida pessoal e que os problemas pessoais interfiram na nossa vida profissional?
Não existe uma fórmula pronta.
Cada pessoa possui uma história, uma realidade e uma maneira própria de lidar com as dificuldades. Uma estratégia que funcionou muito bem para determinada pessoa pode não produzir o mesmo resultado para outra.
E talvez seja justamente aí que esteja o primeiro aprendizado.
Não somos iguais
No mundo corporativo, frequentemente encontramos receitas prontas para praticamente tudo.
Como liderar.
Como administrar conflitos.
Como aumentar a produtividade.
Como lidar com pressão.
Como alcançar o sucesso.
Mas o ser humano não funciona como uma máquina.
Cada pessoa reage de uma maneira diferente diante dos mesmos acontecimentos.
Uma crítica pode motivar alguém e desanimar outra pessoa.
Uma mudança pode representar oportunidade para um profissional e ameaça para outro.
Uma promoção pode ser motivo de comemoração para alguém e gerar insegurança em outra pessoa.
Não existem padrões absolutos.
Por isso, precisamos aprender a construir nossas próprias estratégias.
É possível separar vida pessoal e profissional?
Minha opinião é que precisamos, pelo menos, tentar.
Não significa deixar de ser humano quando entramos na empresa.
Também não significa deixar de ser profissional quando chegamos em casa.
Significa aprender a compreender o contexto em que estamos.
No ambiente de trabalho, precisamos exercer nosso papel profissional com responsabilidade, equilíbrio e competência.
Em casa, precisamos permitir que o lado pessoal tenha espaço.
Parece simples.
Mas não é.
Quantas vezes você chegou em casa depois de um dia difícil e continuou discutindo mentalmente com aquele colega?
Quantas vezes uma cobrança do chefe permaneceu na sua cabeça durante o jantar?
Quantas vezes um problema familiar tirou sua concentração durante o expediente?
É exatamente aí que precisamos praticar.
Desligar não é tão fácil
Não "derreta" seus neurônios tentando descobrir como fazer isso de uma hora para outra.
Pratique.
Faça.
Tente novamente.
Desligar-se do trabalho não é fácil.
Da mesma maneira, deixar temporariamente de lado uma preocupação familiar também pode ser extremamente difícil.
Mas existe uma diferença entre ter um problema e permitir que ele ocupe todos os espaços da nossa vida.
Talvez o segredo esteja no treinamento.
Ninguém nasce pronto
Oscar Schmidt não se tornou um dos grandes nomes do basquete brasileiro apenas por possuir talento.
O talento certamente teve sua importância.
Mas houve treinamento.
Muito treinamento.
Repetição.
Disciplina.
Dedicação.
Erros e correções.
A capacidade foi desenvolvida ao longo do tempo.
Nossa vida também funciona um pouco assim.
Para ser um bom profissional, precisamos estudar, nos atualizar, adquirir experiência e desenvolver competências.
Nada disso simplesmente cai do céu.
Precisamos nos dedicar.
E o mesmo princípio pode ser aplicado à vida pessoal.
Relacionamentos também precisam de atenção.
A família precisa de presença.
Os filhos precisam de tempo e dedicação.
Pais, companheiros e amigos também precisam sentir que são importantes.
Não basta estar fisicamente presente.
É preciso estar emocionalmente disponível.
O trabalho não pode ocupar todos os espaços
Imagine chegar em casa depois de uma discussão no trabalho.
Você está irritado.
Seu pensamento continua preso ao que aconteceu.
A conversa se repete na sua cabeça.
Você pensa no que deveria ter respondido.
Pensa no que fará no dia seguinte.
Enquanto isso, sua família está diante de você.
E não tem absolutamente nenhuma responsabilidade pelo que aconteceu durante seu expediente.
Por que permitir que um problema profissional roube também o tempo que deveria ser dedicado à família?
É claro que nem sempre conseguiremos deixar tudo para trás assim que atravessarmos a porta de casa.
Somos seres humanos.
Mas podemos tentar.
E tentar repetidamente pode transformar uma atitude em hábito.
Resiliência também se aprende
Uma das competências que pode ajudar nesse processo é a resiliência.
Ser resiliente não significa fingir que nada aconteceu.
Também não significa aceitar qualquer situação passivamente.
Significa desenvolver capacidade para enfrentar adversidades sem permitir que elas determinem completamente nosso comportamento.
Um profissional pode receber uma crítica e aprender com ela.
Pode enfrentar um conflito e procurar uma solução.
Pode ter um dia ruim e, ainda assim, evitar levar toda aquela carga emocional para casa.
Isso é prática.
É desenvolvimento.
É maturidade.
Ser profissional não significa deixar de ser humano
Aqui está um ponto importante.
Não acredito que devamos eliminar nosso lado humano para sermos bons profissionais.
Muito pelo contrário.
Nossa humanidade faz parte daquilo que somos.
Temos emoções.
Temos sonhos.
Temos medos.
Temos problemas.
Temos dias bons e dias ruins.
O que precisamos aprender é a administrar essas características dentro de cada contexto.
Não precisamos deixar de sentir.
Precisamos aprender a lidar com aquilo que sentimos.
Não precisamos ignorar nossos problemas.
Precisamos aprender quando e como enfrentá-los.
O mundo corporativo continuará sem você
Existe uma realidade que pode parecer dura, mas precisa ser compreendida.
O mundo corporativo continuará existindo sem você.
A empresa provavelmente encontrará alguém para ocupar sua função.
Os processos continuarão.
As metas serão substituídas por outras.
Novas pessoas chegarão.
Isso não significa que você não tenha importância.
Significa apenas que sua vida é maior do que seu emprego.
Seu cargo não define quem você é.
Sua profissão é apenas uma parte da sua história.
Sua família, seus relacionamentos, seus sonhos e seus projetos também fazem parte dela.
Cada pessoa encontra seu próprio caminho
Algumas pessoas conseguem separar melhor a vida pessoal da profissional.
Outras encontram maior dificuldade.
Algumas precisam de mais tempo.
Outras desenvolvem estratégias rapidamente.
Não existe uma fórmula universal.
E talvez seja justamente essa diversidade que torne o ser humano tão interessante.
Para alguns, haverá sucesso.
Para outros, fracasso.
Alguns serão promovidos.
Outros serão desligados.
Alguns encontrarão prazer em sua profissão.
Outros descobrirão que precisam mudar de caminho.
Haverá momentos de alegria e momentos de tristeza.
Faz parte da vida.
Conclusão
Ser humano ou ser profissional?
Talvez a pergunta esteja errada.
Não precisamos escolher.
Podemos ser profissionais competentes sem deixar de ser humanos.
Podemos buscar resultados sem abandonar nossos valores.
Podemos enfrentar problemas no trabalho sem permitir que eles destruam nossos relacionamentos pessoais.
Podemos aprender a deixar algumas preocupações no ambiente onde elas surgiram.
Não é fácil.
Mas é possível aprender.
Treinar.
Melhorar.
Todos os dias.
Não precisamos sofrer para nos transformar em profissionais melhores.
Precisamos apenas começar.
E talvez a melhor estratégia seja compreender que o trabalho é uma parte importante da nossa vida, mas não é a nossa vida inteira.
Portanto, seja profissional quando precisar ser profissional.
Seja humano quando precisar ser humano.
E, acima de tudo, seja feliz à sua maneira.
Sou Luciano Muchiotti, especialista em carreira, liderança e desenvolvimento profissional. Meu propósito é ajudar pessoas a desenvolverem suas competências profissionais sem perder de vista aquilo que realmente importa: sua própria história, seus valores e sua vida além do trabalho.
